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Fotógrafo relata viagem ao encontro do bumba-meu-boi

11:21 15/07
Juvenal Pereira, especial para o iG (editorultimosegundo@ig.com)

O nome da cidade de Cururupu vem do barulho da espingarda que matou Cururu, o cacique tupinambá. Cururu: índio cabelo de velha. Pu: barulho de tiro de espingarda. Caracteriza a beligerante ocupação das reentrâncias maranhenses pelos portugueses. O folguedo principal é o bumba-meu-boi com seus sotaques. São muitos bois na região. O principal, único e pioneiro do Estado é o boi sotaque pandeiro de costa de mão
Juvenal Pereira
Mario Campello, o "amo do boi"
Dá para ir de ônibus de São Luis até Cururupu. Mas é punk. Ele é todo amarelo. Tão velho que a lataria vai se desmanchando com o nome Continental, escrito nas laterais. A saída é no terminal do anel viário.

Optei por uma van estacionada nas proximidades dirigida pelo Cesário. Um negro sorridente com um dente de ouro e vestido com a camisa do Flamengo. Foi da Polícia Federal. Trabalhou na Guiana Francesa como carpinteiro e hoje dirige a van na rota São Luís-Cururupu. O destino é ao norte, nas "reentrâncias maranhenses". Durante toda a viagem o som do reggae é alternado com música popular.

Pelas beiras da estrada, pequenos agricultores colocam o arroz recentemente colhido para secar no asfalto sobre um plástico preto. Bois e jegues servindo de montaria. Muitas paradas para embarcar e desembarcar passageiros. A van entupida de malas e compras.

Maravilha das maravilhas: ar condicionado. Mas um dos passageiros "botou o fato para fora" no palavreado do Cesário. "Vomitou tudo que comeu". Aí, para entrar um ar abriram as janelas e o calorão tomou de conta. Em pequenos povoados, radiolas (colunas de caixa de som) mandavam ver no reggae.

Cururupu

A maré tem uma influência dominante sobre a cidade. É uma das maiores do mundo. Chega a subir seis metros, e desce o mesmo tanto. Como é variável o ferry-boat que faz a travessia da Ilha de São Luís via Canal de São Marcos tem seus horários compatíveis com as forças da natureza.
Cururupu foi se aproximando de tardinha. As palmeiras imperiais na praça. Um comércio com muitas carroças puxadas por jegues, automóveis e um trânsito grande de pedestres. "A época é boa, tem muito peixe", disse o Amado, do Restaurante Samambaia. No centro, muitas construções de estilo colonial. Os bairros têm casas de paredes taipa, adobe com o chão batido e são cobertas de palhas de coqueiro.

Na primeira noite o Cesário foi meu guia. Fui apresentado ao Vilson, que é amo do boi de costa de mão, e à Filomena, do tambor de crioula, uma famosa guia espiritual e festeira do bairro. Eles me iniciaram na batida do pandeiro de costa de mão e acabou sendo um reencontro com o tambor de crioula.

A brincadeira do "boi" é uma homenagem a São João. O batismo é sempre feito à noite, na véspera do dia do santo. As brincadeiras vão até o final de outubro quando acontece a matança do boi. São muitos brincantes com seus instrumentos: tambor onça (cuíca que imita o urro do boi), pandeiros e maracás (chocalhos). As roupas são criações de costureiras renomadas e o bordado é feito durante semanas com canutilhos e miçangas coloridas. Quando vestido, os brincantes elevam a auto-estima e se assemelham a membros nobres de uma corte fiel a D. Sebastião.

Todo ano o couro do boi é renovado. A manutenção vem de doações dos brincantes, um pequeno apoio da Prefeitura, muita força de vontade e fé ardorosa em São João. Na opinião do Vilson, “quem brinca é só pobre. Cada um pobre que acompanha faz aquele impossível. O impossível é o seguinte: porque ele não pode fazer. Mas ele gosta. Ele faz daqui, de lá e tal. Cada um brincante tem o seu preparo. Ele ajeita a roupa dele.”

Boi sotaque pandeiro de costa de mão

Sotaque é o ritmo, a coreografia, os instrumentos e as toadas. O sotaque de pandeiro de costa de mão só existe em Cururupu. É pioneiro e único no Maranhão. O boi do Wilson substituiu em importância o Boi do Lulu (morto recentemente), que era o mais famoso. O modesto Boi do Mané Rabo (ele gostava de comer rabo de peixe) e o também pequeno Boi do Mário Damasceno (discípulo do Lulu) com suas toadas criativas e melodiosas.

A característica principal deste sotaque é que os pandeiros são tocados com as costas da mão por 20 e até 30 brincantes. Os primeiros pandeiros eram feitos de arco de jenipapo e cobertos com couro de cotia ou de guariba, que produzem um som melhor. Com a proibição da caça, a cobertura dos pandeiros atuais é de plástico. As armações são de aço inox ou folha de flandres e afinados por tarraxas. Diferentes dos antigos que eram afinados no calor da roda de fogueira, durante o guarnicê.

Vilson mantém o Boi Rama Santa de Cururupu Costa de Mão desde os 16 anos. “Eu comecei a formar e formei a brincadeira. Eu, a minha pessoa, participa de bumba-boi desde 1948 naqueles boizinhos de Santo Antonio que a gente fazia. Hoje quase não existe mais. Já teve muito. Santo Antonio é logo o primeiro boi que existia começando de criança e tal. Lá pelos dias 23, 24 de junho começa o boi de São João.”

As toadas evocam pelejas, realizações, louvações e as brincadeiras vão até outubro-novembro, quando acontece a matança do boi. Até lá, eles fazem várias apresentações em Cururupu. A apoteose é no dia de São Pedro no Arraial da Madre Deus em São Luís. Lá, uma apresentação é considerada como a consagração do boi e dos brincantes.

O batismo do Boi Pavão Misterioso

No singelo altar construído no galpão da casa do Vilson o boi está sobre uma mesa ao lado de presentes e oferendas por promessas de graças alcançadas. Coberto com o novo couro. O couro do Pavão Misterioso. Feito de veludo preto e bordado com coloridos canutilhos, miçangas e paetês pela Mercedes. A artista do bordado. Faz esse trabalho há mais de 40 anos e já formou várias outras bordadeiras. Os bordados são baseados nos rascunhos criados pelo Joelson, que afirma ter feito mais de dois mil rascunhos pelo preço de uma gratificação, um maço de cigarros ou, quando muito, R$ 10. Os desenhos são feitos no verso do papel de embrulho da farmácia do bairro.

O batismo do Pavão Misterioso é na noite da véspera do dia de São João Batista, pois foi ele que batizou Jesus Cristo. Da honraria é que vêm as homenagens e as promessas realizadas em agradecimento às graças alcançadas. Mulheres entoam uma ladainha puxando versos em latim no início da cerimônia. Todos os brincantes, numa atitude religiosa, acompanham em coro. No final da ladainha, o amo puxa uma toada e agita o maracá chamando pelo som dos pandeiros batidos com as costas das mãos. A voz dos homens envolve o pequeno galpão de chão batido.

Dai em diante, com o boi já batizado, vão passear pelos arredores. Se mostrar em São Luís e outras praças. Levar o seu sotaque, sua graça, seus brincantes, suas roupas bordadas e bem coloridas. Os chapéus de muitas fitas. Representando um ato: o desejo da grávida Catarina em comer a língua de boi com a lenda do rei D. Sebastião. Ele se transforma num touro encantado com uma estrela na testa. Passeia pelo Maranhão nas noites de sexta-feira coberto de esmeraldas e pedras preciosas.


Toada do Mario Campelo

Viva Cururupu
Porque é nossa terra natal
A praça da matriz
E circulada das palmeiras imperiais
São Luis é da palmeira
Onde gorjeia o sabiá
Canta-se nessa daqui
Eu nunca vi os antigos falar
Praça da igreja
Onde representa os bumba boi
Tem concurso de carnaval
Muitas belezas que a natureza criou
Muitas praias bonitas
Que Jesus Cristo deixou
Praia dos Lençóis
Aonde Rei Sebastião se encantou
Eu amo tanto o bairro que eu habito
Principalmente a rapaziada
Quando solto o meu apito
Neste terreiro eu me acostumei
E por este motivo que ainda eu não deixei
Mas com o tempo as coisas
Vão desmilinguindo
A saudade que eu tenho
É de saber quem eu era
E hoje eu me vejo sozinho
Pra não chorar eu vivo sorrindo
É neste brinquedo que eu estou me distraindo.
 

  Juvenal Pereira
 
  Pandeiros de Mario Campello
  Juvenal Pereira
 
  Vestuário dos brincantes do bumba boi
  Juvenal Pereira
 
  Brincantes marajados tocando pandeiro de costa de mão
  Juvenal Pereira
 
  Bordadeiras do couro do boi
  Juvenal Pereira
 
  Praça São João Batista
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