Dá para ir de ônibus de São Luis até Cururupu. Mas é punk.
Ele é todo amarelo. Tão velho que a lataria vai se
desmanchando com o nome Continental, escrito nas laterais. A
saída é no terminal do anel viário.
Optei por uma van
estacionada nas proximidades dirigida pelo Cesário. Um negro
sorridente com um dente de ouro e vestido com a camisa do
Flamengo. Foi da Polícia Federal. Trabalhou na Guiana Francesa
como carpinteiro e hoje dirige a van na rota São
Luís-Cururupu. O destino é ao norte, nas "reentrâncias
maranhenses". Durante toda a viagem o som do reggae é
alternado com música popular.
Pelas beiras da estrada,
pequenos agricultores colocam o arroz recentemente colhido
para secar no asfalto sobre um plástico preto. Bois e jegues
servindo de montaria. Muitas paradas para embarcar e
desembarcar passageiros. A van entupida de malas e compras.
Maravilha das maravilhas: ar condicionado. Mas um dos
passageiros "botou o fato para fora" no palavreado do Cesário.
"Vomitou tudo que comeu". Aí, para entrar um ar abriram as
janelas e o calorão tomou de conta. Em pequenos povoados,
radiolas (colunas de caixa de som) mandavam ver no reggae.
Cururupu
A maré tem uma influência
dominante sobre a cidade. É uma das maiores do mundo. Chega a
subir seis metros, e desce o mesmo tanto. Como é variável o
ferry-boat que faz a travessia da Ilha de São Luís via Canal
de São Marcos tem seus horários compatíveis com as forças da
natureza. Cururupu foi se aproximando de tardinha. As
palmeiras imperiais na praça. Um comércio com muitas carroças
puxadas por jegues, automóveis e um trânsito grande de
pedestres. "A época é boa, tem muito peixe", disse o Amado, do
Restaurante Samambaia. No centro, muitas construções de estilo
colonial. Os bairros têm casas de paredes taipa, adobe com o
chão batido e são cobertas de palhas de coqueiro.
Na
primeira noite o Cesário foi meu guia. Fui apresentado ao
Vilson, que é amo do boi de costa de mão, e à Filomena, do
tambor de crioula, uma famosa guia espiritual e festeira do
bairro. Eles me iniciaram na batida do pandeiro de costa de
mão e acabou sendo um reencontro com o tambor de crioula.
A brincadeira do "boi" é uma homenagem a São João. O
batismo é sempre feito à noite, na véspera do dia do santo. As
brincadeiras vão até o final de outubro quando acontece a
matança do boi. São muitos brincantes com seus instrumentos:
tambor onça (cuíca que imita o urro do boi), pandeiros e
maracás (chocalhos). As roupas são criações de costureiras
renomadas e o bordado é feito durante semanas com canutilhos e
miçangas coloridas. Quando vestido, os brincantes elevam a
auto-estima e se assemelham a membros nobres de uma corte fiel
a D. Sebastião.
Todo ano o couro do boi é renovado. A
manutenção vem de doações dos brincantes, um pequeno apoio da
Prefeitura, muita força de vontade e fé ardorosa em São João.
Na opinião do Vilson, “quem brinca é só pobre. Cada um pobre
que acompanha faz aquele impossível. O impossível é o
seguinte: porque ele não pode fazer. Mas ele gosta. Ele faz
daqui, de lá e tal. Cada um brincante tem o seu preparo. Ele
ajeita a roupa dele.”
Boi sotaque pandeiro de costa
de mão
Sotaque é o ritmo, a coreografia, os
instrumentos e as toadas. O sotaque de pandeiro de costa de
mão só existe em Cururupu. É pioneiro e único no Maranhão. O
boi do Wilson substituiu em importância o Boi do Lulu (morto
recentemente), que era o mais famoso. O modesto Boi do Mané
Rabo (ele gostava de comer rabo de peixe) e o também pequeno
Boi do Mário Damasceno (discípulo do Lulu) com suas toadas
criativas e melodiosas.
A característica principal
deste sotaque é que os pandeiros são tocados com as costas da
mão por 20 e até 30 brincantes. Os primeiros pandeiros eram
feitos de arco de jenipapo e cobertos com couro de cotia ou de
guariba, que produzem um som melhor. Com a proibição da caça,
a cobertura dos pandeiros atuais é de plástico. As armações
são de aço inox ou folha de flandres e afinados por tarraxas.
Diferentes dos antigos que eram afinados no calor da roda de
fogueira, durante o guarnicê.
Vilson mantém o Boi Rama
Santa de Cururupu Costa de Mão desde os 16 anos. “Eu comecei a
formar e formei a brincadeira. Eu, a minha pessoa, participa
de bumba-boi desde 1948 naqueles boizinhos de Santo Antonio
que a gente fazia. Hoje quase não existe mais. Já teve muito.
Santo Antonio é logo o primeiro boi que existia começando de
criança e tal. Lá pelos dias 23, 24 de junho começa o boi de
São João.”
As toadas evocam pelejas, realizações,
louvações e as brincadeiras vão até outubro-novembro, quando
acontece a matança do boi. Até lá, eles fazem várias
apresentações em Cururupu. A apoteose é no dia de São Pedro no
Arraial da Madre Deus em São Luís. Lá, uma apresentação é
considerada como a consagração do boi e dos brincantes.
O batismo do Boi Pavão Misterioso
No
singelo altar construído no galpão da casa do Vilson o boi
está sobre uma mesa ao lado de presentes e oferendas por
promessas de graças alcançadas. Coberto com o novo couro. O
couro do Pavão Misterioso. Feito de veludo preto e bordado com
coloridos canutilhos, miçangas e paetês pela Mercedes. A
artista do bordado. Faz esse trabalho há mais de 40 anos e já
formou várias outras bordadeiras. Os bordados são baseados nos
rascunhos criados pelo Joelson, que afirma ter feito mais de
dois mil rascunhos pelo preço de uma gratificação, um maço de
cigarros ou, quando muito, R$ 10. Os desenhos são feitos no
verso do papel de embrulho da farmácia do bairro.
O
batismo do Pavão Misterioso é na noite da véspera do dia de
São João Batista, pois foi ele que batizou Jesus Cristo. Da
honraria é que vêm as homenagens e as promessas realizadas em
agradecimento às graças alcançadas. Mulheres entoam uma
ladainha puxando versos em latim no início da cerimônia. Todos
os brincantes, numa atitude religiosa, acompanham em coro. No
final da ladainha, o amo puxa uma toada e agita o maracá
chamando pelo som dos pandeiros batidos com as costas das
mãos. A voz dos homens envolve o pequeno galpão de chão
batido.
Dai em diante, com o boi já batizado, vão
passear pelos arredores. Se mostrar em São Luís e outras
praças. Levar o seu sotaque, sua graça, seus brincantes, suas
roupas bordadas e bem coloridas. Os chapéus de muitas fitas.
Representando um ato: o desejo da grávida Catarina em comer a
língua de boi com a lenda do rei D. Sebastião. Ele se
transforma num touro encantado com uma estrela na testa.
Passeia pelo Maranhão nas noites de sexta-feira coberto de
esmeraldas e pedras preciosas.
Toada do Mario
Campelo
Viva Cururupu Porque é nossa terra
natal A praça da matriz E circulada das palmeiras
imperiais São Luis é da palmeira Onde gorjeia o sabiá
Canta-se nessa daqui Eu nunca vi os antigos falar
Praça da igreja Onde representa os bumba boi Tem
concurso de carnaval Muitas belezas que a natureza criou
Muitas praias bonitas Que Jesus Cristo deixou
Praia dos Lençóis Aonde Rei Sebastião se encantou
Eu amo tanto o bairro que eu habito Principalmente a
rapaziada Quando solto o meu apito Neste terreiro eu
me acostumei E por este motivo que ainda eu não deixei
Mas com o tempo as coisas Vão desmilinguindo A
saudade que eu tenho É de saber quem eu era E hoje eu
me vejo sozinho Pra não chorar eu vivo sorrindo É
neste brinquedo que eu estou me distraindo.
| |
Juvenal
Pereira |
| |
 |
| |
Pandeiros
de Mario Campello
|
| |
Juvenal
Pereira |
| |
 |
| |
Vestuário
dos brincantes do bumba
boi
|
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
| |
Juvenal
Pereira |
| |
 |
| |
Brincantes marajados tocando pandeiro de costa
de mão
|
| |
Juvenal
Pereira |
| |
 |
| |
Bordadeiras do couro do
boi
|
| |
Juvenal
Pereira |
| |
 |
| |
Praça São
João
Batista
| |